quinta-feira, 3 de março de 2011

Guerra Brasilis - baixa nacional: Lavínia Azeredo, seis anos.


Morrer violentamente já virou rotina. Ou melhor, já é item básico na cesta básica mental desse país. Creio até que se passarmos um dia de paz, estranharemos muito, pois o tempero diário “a violência” faltará. E como iremos então dar gosto às nossas conversações na vizinhança, nas paradas de ônibus e no trabalho? Asfixiada aos seis anos, a menina Lavínia Azeredo deixou a República Federativa do Brasil. A comoção é geral. Cada família que vê as reportagens deprime-se. Cada ser humano morre um pouco. A tragédia poderia ser com um filho, um neto ou uma irmã nossa. Imaginem! Imaginaram? Que bom! Vocês pensam!
Nas matérias surgem as pessoas indignadas. Que clamam por justiça e fazem passeatas, caminhadas, movimentos, palestras, faixas e panfletagens. Vão às ruas de branco, com fotos e frases. Um evento aqui e outro acolá. Postam textos em blogs, facebook, twitter e etc. uma boa iniciativa. Mas. depois a rotina volta, exceto para a família violentada no corpo e na alma. Essa dor será eterna. Atenuada com o tempo, mas eterna. Mesmo as boas palavras amigas serão como espada rasgando o corpo, visto que fazem com que se relembrem do ocorrido. E novamente, as famílias atingidas voltam à deriva social.
E o pior é que esses casos viram estatística. Ou seja, foi mais uma. Apenas. Ao camaravodka Stálin é atribuída a seguinte frase: “A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística”. É isso que estamos vivendo agora. Uma tragédia concentrada que se diluirá nas estatísticas oficiais. Um caso relembrado vez por outra para apimentar audiências e vendas. Mas, ao pararmos um pouco, perceberemos que ultrapassamos os limites de tolerância com essas atrocidades do meio humano. Mas, quando temos esses “estalos”, vemo-nos sozinhos, pois a maioria está ocupada demais em ganhar dinheiro para consumir-se. E ao nos sentirmos sós nesse despertar, enfraquecemos, e nos estressamos, e nos deprimimos e adoecemos.
Porém, antes das doenças físicas, adoecemos socialmente. Drogados com o comodismo e a passividade, ficamos fora de sintonia com o que nos circunda. Olhamos pelas janelas e baixamos as cortinas. Ou para sermos mais chiques, vemos pelos olhos das câmeras das polícias e dos ônibus. Esses últimos, os camarotes Vips, poupam-nos o esforço de irmos às janelas, sacadas e portas. Pois as verdades externas nos orientam a decidirmos entre concentrar-se no individualismo ou diluir-se na próxima troça que passar. O resultado é ovacionarmos a violência com nosso silêncio e rotinas. Abandonando a humanidade natural pelo consumismo normalmente exagerado. Todavia, o que é natural sempre aflora. O sentimento ressurge e reorienta o caminho.
Vejam o exemplo do delegado do caso. A voz e a postura dele ao detalhar para a mídia, o estado em que foi encontrada a criança. Era nítido ali que o humano aflorou. E cada impacto desses estimulam a pensarmos até quando seremos omissos com nossa sociedade. Temos uma legislação caduca, cheia de brechas. Votamos em pessoas envolvidas em tantas coisas. Mas, na realidade, essa turma é a nossa cara. Ela, assim como as ditaduras, representa a consciência de um povo que é potencializada por manipuladores espertos. Há tantas pessoas que dizem que se estivessem lá fariam o mesmo. E quantos se vendem por um favor, por uma conta paga, por um padrão de jogo, por uma prótese? Um bocado, certamente.
Mas até quando o caso Lavínia ficará em nossas mentes? O Carnaval se aproxima. Toda uma programação foi feita para esse grande momento que nos torna iguais, e ao mesmo tempo, omissos com o meio em que vivemos. Alguém se lembra do caso Yves Yoshiaki Ota de oito anos (1997)? Mas certamente, muitos se lembram com detalhes dos antigos carnavais com suas folias, bebedeiras e trepadeiras. Vivemos uma guerra civil diferenciada. Colocamos grades em casa para nos aprisionarmos. Nossas escolas são fortalezas. Nossas praças são áreas de treino par franco atiradores.  Consumimos em exagero para suprir nosso vazio. E a cada dia, por nossa omissão, por uma legislação muitas vezes caduca e por políticos do reino de Gerson, perdemos inocentes como Lavínia e Yves Oka.
Esses são os noticiados. Pois há muito mais nesse gigante continental, em cada esquina, fazenda ou condomínio de luxo. Talvez devêssemos reduzir a palavra Indignação para a sua parte final: Ação. Que poderia se traduzida em Atitude. E já que somos tão criativos para fazer loucuras carnavalescas. Dedicamos um ano ao planejamento de nossa troça, bloco ou escola de samba. Poderíamos dedicar parte de nosso tempo para pesquisar mais, para acompanhar atenciosa e humanamente esses casos. Para com isso, darmos um basta a esse sistema de coisas que a cada dia bate às nossas portas. E mesmo com tantos cadeados, muros altos e sistemas de segurança, ele chega sorrateiramente.
Que Lavínia e Yves Oka estejam num paraíso. E possam brilhar com suas inocências para despertar em nós Atitude. Para que se evitem tantas atrocidades, tanta lamentação e horror. Que esse país tome vergonha na cara e pare de achar que valor nacional supremo é bunda, futebol e carnaval. A maior riqueza humana é a Vida. E sãos as vidas de crianças inocentes que estão em jogo. Ceifadas a cada instante, enquanto nos indignamos e depois passamos para o modo: estatística. E dizer que é assim mesmo, é uma grande covardia. Pois somos todos um.  

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.