Quando se fala em Cabo, Ipojuca e Suape, parte da sociedade pernambucana entra em êxtase. Parece que o paraíso celestial desceu a Terra. E claro... tendo Eduardo Campos, como o anjo anunciador e executor desse grande projeto... e salve, salve... Nada mais apocalíptico. Por trás do badalado desenvolvimento econômico, o não envolvimento social continua. Em abril desse ano visitei Ipojuca pela primeira vez. Gostei do centro. Contudo, espantei-me com a quantidade de mato crescido próximo às paradas de ônibus na rodovia. E para complementar, muito plástico de bobeira por ali, prestes a se tornar o Ipojuca Dengue Resort.
Já no Cabo de Santo Agostinho, tive a oportunidade de andar num trem comum, pela primeira vez, também. Quer dizer, chamar aquele reco-reco de trem, é piada. Aquelas locomotivas deveriam ser tombadas dos trilhos para nunca mais se moverem. Demorado, calorento; dá umas paradas estranhas, e às vezes, bruscas; e algumas portas só fecham se levarem pancada ou chute. Em movimento, parece que os vagões vão se soltar. Além disso, há um complemento externo: pessoas lindas e maravilhosas jogam pedras nos vagões. As janelas, em sua maioria, possuem telas. Nas que não tem, é seguro fechá-las. E assim amplia-se o calor insuportável. O pior é que há pessoas, que ficam com o rosto nas janelas sem telas. Inclusive crianças.
Segundo os usuários, o lance das pedras é antigo e já ocorreram acidentes graves com alguns passageiros, por conta das pedras. Hoje, 15/04/2011, ouvi de outro usuário uma '"história" para lá de estranha, que uma semana dessas ocorreu um acidente fatal: Uma idosa foi atropelada e partida ao meio por uma das locomotivas. E haja imaginação. Contudo, uma coisa é fato: o trem passa perigosamente próximo de muitas casas e invasões. Pessoas andam pelos trilhos, atravessam-nos, pois em algumas áreas por onde passa, são abertas. As pedradas sempre ocorrem entre a Estação do Metrô Cajueiro Seco e a primeira estação do trem Diesel, e nas cercanias da Santo Inácio, antes do terminal. Na volta, observei que os seguranças - nos locais de ocorrência - estavam atentos a alguma coisa. Inclusive com as portas abertas. As pedras não surgiram. Minto eu, umas pedras pequenas foram jogadas. Assim julguei, pelo som fraco do impacto sobre a lataria. Mas há no horizonte, ó, salve, salve... uma esperança: o VLT que surgirá.
Ninguém sabe quando. Talvez antes de qual Copa? Será que terá o nome VLT Miguel Arraes? Bem, contanto que não peide que nem o reco-reco atual... está ótimo. Pois, além dos estalos & Cia., as ditas locomotivas tem uns escapes estranhos que se assemelham mais a uma crise de flatulências. Mas pelo que vi na internet, os VLTs são trens modernos e climatizados. Todavia, os vidros de suas janelas aguentarão a saraivada de pedras diárias? Talvez se torne mais perigoso ainda. Outro ponto engraçado no trajeto do trem, é que em certa altura, só há uma via de tráfego. Ou seja, na estação “X”, a locomotiva “Y” tem que esperar a locomotiva “Z” passar para poder seguir viagem. Quando se tem sorte, os dois se encontram logo...
São fatos como esses que põem, ou melhor, que quebram esses “lelês” publicitários da política. Quando passei quatro meses no HR, com minha mãe de 71 anos, em plena vigência da campanha eleitoral (2010), vi a distância entre o dito e o escondido. Recentemente, o IML foi outra mostra incontestável do sucateamento público. Enquanto o ocupante efêmero do cargo de governador posa de neopolítico empresarial; o social continua no descaso. Enquanto se diz que alguns índices de violência caíram... basta vermos Cardinot e Sérgio para repensarmos essa verdade politiqueira. Enquanto se badala “governo sustentável” basta desviarmos os olhares do Hospital Regional Hélder Câmara, e vermos ao redor... e nas margens as rodovias.
Estar em pleno Século XXI, falar de desenvolvimento e dignidade, e ter o trem do Cabo funcionando daquele jeito; é uma piada de mau gosto. Hoje, havia um deputado estadual salve, salve... sendo a estrela do movimento: Sou cabense, quero me capacitar. Em frente à Estação Ferroviária do Cabo. Eu queria de fato ver aquele “cara lisa”, Eduardo Campos, o prefeito, os deputados estaduais e federais pernambucanos; o povo dos Ministérios Públicos Estadual e Federal, da CBTU e até a presidente Dilma esperando e viajando no tenebroso trem do Cabo de Santo Agostinho. Aquilo não é transporte. É um atentado à vida. É vergonhoso.
Aquele transporte muito serviu e serve àquela comunidade. É parte de sua história. Entretanto, a estrutura está totalmente ultrapassada. E o que me espanta muito mais é a passividade da população. Que fica esperando o dia em que o VLT surgirá no horizonte... salve, salve. Mas será que de tão acostumados - por longos anos - ao atraso, os usuários e usuárias do reco-reco se acostumarão com o novo?
 |
| Fotos das partes internas do reco-reco. |
 |
Esse trem embaixo vive parado, mas não é diferente dos que estão em uso.
|